Acabei de fazer um post para meu blog literário, sobre uma releitura que fiz este mês para um Clube do Livro. Porque eu sou fofa ao ponto de participar de Clubes do Livro, ok? Se quiser conferir o post, ele está aqui. Tá bem decente, inclusive.
Ler Madame Bovary agora foi maravilhoso. Quando estudei sobre ele na faculdade acabei não dando devida atenção (e amor!) a este livro sensacional. E, se quer saber, todo leitor voraz tem um pouco de Madame Bovary dentro de si. Acredito mesmo que todo devorador de histórias tenha sua inclinação (leve, moderada ou grave) para achar esse mundo uma droga às vezes (ou sempre). A estar insatisfeito. A esperar sempre mais e nivelar lá no alto suas expectativas.
Um leitor faminto tende a sentir um tédio mortal de certas coisas reais. Ele se pega com aquela sensação esquisitíssima de que a vida, ela não pode ser só isso. Não é possível que a vida seja só isso.
Gustave Flaubert, quando questionado sobre quem havia sido a inspiração para a criação de Emma Bovary, respondeu, solene: "Madame Bovary c'est moi!". Madame Bovary sou eu. Num grau leve, eu suponho, senão não teria sido o gênio que foi. E eu sempre me achei meio Emma também. Talvez num grau moderado. E admitir isso parece meio horroroso se você parar para analisar a personagem superficialmente. Ela é terrível, gente. Ela é má, às vezes. Ela é fria. Ela é uma péssima mãe. Então não me interpretem errado, por favor. Mas eu consigo entendê-la em determinados momentos, e pior: acho esses momentos muito aceitáveis. Acho que há certo heroísmo (e feminismo) na ânsia dela em querer algo melhor para si, mesmo que de uma forma torta e descuidada. Emma lança-se em seus desejos tal Dom Quixote em suas aventuras, na tentativa sôfrega de viver tudo em liberdade. De ser feliz.
Madame Bovary vai além da história de uma mulher adúltera. Não é esse o ponto aqui. Até porque nem sei dizer ao certo se Emma é mesmo a (única) protagonista da história, ou se Charles o é, já que Flaubert faz questão de contar sua vida desde a infância e a adolescência, e o adultério de Emma é apenas uma parte da obra toda. Parte importante, óbvio, mas apenas parte.
Trechos incríveis
Amor e casamento:
Perguntava se não teria havido uma maneira, por outras combinações do acaso, de encontrar outro homem; e procurava imaginar quais teriam sido aqueles acontecimntos que não se haviam realizado, aquela vida diferente, aquela marido que ela não conhecia. [...] Quanto a ela, sua vida era fria como uma água-furtada, cuja lucarna dá para o norte e o tédio, aranha silenciosa, tecia sua teia na sombra, em todos os recantos de seu coração.
O amor, pensava ela, devia chegar de repente com grande estrondo e fulgurações - furacão dos ceús que cai sobre a vida, transtorna-a, arranca as vontades como folhas e arrasta para o abismo o coração inteiro. Ela não sabia que no terraço das casas a chuva faz lagos quando as calhas estão entupidas e permaneceu assim em sua segurança, quando descobriu subitamente uma fenda no muro.
A humildade perdida:
Fechou piedosamente na comoda seu belo vestido e até seus sapatos de cetim, cuja sola amarelara-se com a cera deslizante do assoalho. Seu coração era como eles: ao atrito da riqueza adquirira alguma coisa que não se apagaria.
#SomosTodosDomQuixote:
Passeamos, imóveis, pelos países que julgamos ver, e nosso pensamento, enlaçando-se à ficção, diverte-se com os detalhes ou persegue o contorno das aventuras. Mistura-se com as personagens, parece que somos nós que palpitamos sob suas vestimentas.
E a frase master do livro:
A difamação daqueles que amamos sempre nos afasta deles um pouco. Não se deve tocar nos ídolos: a douradura acaba ficando em nossas mãos.
Adaptações e inferências
Na novela 'Avenida Brasil" (2012), o personagem Tufão (Murilo Benício) é incentivado a ler diversos títulos literários, pela personagem Nina (Débora Falabela). A ideia da garota era ajudá-lo a sair da inércia e a abrir seus olhos para o que acontecia ao seu redor. Entre os títulos indicados pela chef, estava Madame Bovary.
Adoro esse trecho de "Pecados Íntimos" (Little Children). O filme é de 2006. Atenção: contém zilhões de spoilers. E cenas de sexo.
No cinema, a adaptação de 1949 com a linda Jennifer Jones (adoro ela!) e a de 1991, com Isabelle Huppert.
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Com estreia prevista para 2015, a Emma Bovary de Mia Wasikowska tem a direção de Sophie Barthes e trará ainda o fofo Ezra Miller como Leon, o segundo amante de Emma.
Adoro a Mia, acho ela talentosíssima, mas tô meio preocupada com o fato de que três heroínas femininas literárias já ganharam a cara dela (ela já deu vida a Alice, de Lewis Carroll e à Jane Eyre, de Charlote Brontë). Já tá bom de mulher de livro, Mia.




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