16 de setembro de 2016

Como vai você?




A voz era forte, cheia daquele poder que só os cantores do passado tinham. Porque os de agora, Maria Luiza achava, eram todos fabricados.

Até a depressão, o semblante, a postura: tudo de mentira.

Mas aquela música ali não. Ali havia dor de verdade, saudade forte e até cheiro de bebida.

Maria Luiza quase podia imaginar o compositor criando na mesa de um bar décadas atrás.

"Como vai você?"

Ah, como Maria Luiza queria saber.

Se as coisas andavam bem.

Se o um bom emprego chegara.

Se uma nova namorada havia.

Quando esse golpe de saudade forte atingiu Maria Luiza, ela estava buscando um assento vazio no ônibus urbano linha 890-1 na hora do rush. Foi um golpe forte e ainda bem que Maria Luiza encontrou um lugar no fundo do veículo longo mantenha distância – ao lado de um homem que aparentava seus setenta anos.

Maria Luiza pensou imediatamente que, enquanto o compositor escrevia aqueles versos décadas atrás, esse mesmo homem era mais jovem, talvez com uma vida incrível e com uma mulher amada muito bonita.

Desejou conversar com ele. Compartilhar os fones de ouvido. Acharia ele estranho se ela de repente perguntasse: "O senhor, por acaso, conheceu Antônio Marcos? O que o senhor imagina que estava fazendo enquanto ele compunha isso aqui que está tocando agora?"

Mas Maria Luiza convenceu-se que isso seria de uma bobagem sem tamanho. E a música na função repeat começou de novo.

Deus, como ela queria saber como ele estava.

Teria dormido bem na noite anterior? Resolvido seus problemas com a insônia?

E aquela dor na lombar que nunca passava?

Da parte dela, houve tantas notícias! Tantas, tantas, e ela não teve a quem contar.

Não da forma como contaria a ele, os olhos brilhando, a vontade mais pura de compartilhar alguma coisa no dia.

Levou as mãos à cabeça e enfiou os dedos sobre os próprios cabelos; aí sim, sentiu vontade de chorar.

Porque estava cansada, chovia lá fora, o trabalho era um porre e aquele golpe de saudade chegara tão certeiro quanto dolorido.

O homem a seu lado se levantou, pediu licença discretamente e desceu no ponto da Avenida Janeiro.

Maria Luiza então se sentiu a vontade para tomar seu lugar ao lado da janela fria, suada por dentro, molhada de chuva por fora. Ali mesmo, na Avenida Janeiro, eles foram tão felizes; e ela se lembrava de tudo como se analisasse uma tela impressionista de perto: cada borrão, cada batida de pincel.

Pensou em ligar, mas não havia mais nenhum número para chamar.

Pensou também que não era o correto a se fazer.

Não soube se gostava mais dele ou de si mesma quando a música questionou isso, pela quinta vez.

Chegou a seu destino, deu o sinal, desembarcou. O ônibus urbano linha 890-1 seguiu rua acima. Dali o ônibus passaria por mais cinco quadras e então uma rua mais estreita, esquina com a Comandante Rodrigues.

Ali, na Comandante Rodrigues ele dissera que haviam chegado a um fim.

Maria Luiza não sabia ainda que devia parar de gostar. Não fora avisada, não recebera memorandos.

Ele deixara de gostar e ela ficou: sozinha, questionando a si mesma se deixara escapar algum detalhe, algum sinal que fosse.

Nunca mais pisou na rua estreita, esquina com a Comandante Rodrigues. Nunca mais visitara o bairro, nunca mais comeu naqueles restaurantes, admirou a bela placa luminosa do sebo que vendia livros e discos maravilhosamente antigos.

Pensando nessas coisas, Maria Luiza se lembrou que precisava abrir o guarda-chuva. Era tarde, sim, porque já estava encharcada. Antonio Marcos continuou gritando em seu ouvido:

“Como vai você?”

- Eu vou muito bem, obrigada. – respondeu, resmungou, cheia de um desdém falso, recém-inventado.

E retirou os fones dos ouvidos, enrolou-os dentro da bolsa, caminhou poças d’água até encontrar o portão da própria casa, mas o assombro da voz do músico continuou em sua cabeça por um longo período.

Dois anos, três meses, doze dias, oito horas e Maria Luiza se perguntava quando aquela contagem teria fim. Ela não estava bem.

Girou a chave no portão, entrou em casa. Respirou. Amanhã, talvez, pudesse acordar mais feliz.

Jamais soube que, naquele mesmo horário, ele passava num táxi, apressado, pela rua estreita, esquina com a Comandante Rodrigues. 

- O senhor quer que abaixe o volume? - o motorista perguntou.

- Não, não. Tudo bem. Eu gosto dessas músicas antigas.

Lembrou-se de Maria Luiza na mesma hora em que Antonio Marcos questionou "Como vai você?" no rádio do veículo. Foi quando pensou também, e não pela primeira vez, em como estaria sua vida, se Maria Luiza, que o amou tanto um dia, ainda estivesse a seu lado.

Carregava consigo diversos erros.

Também saudade e arrependimento.

Mas então era tarde, era apenas muito tarde e era noite. Eram dois anos, três meses, doze dias...

Olhou no relógio, checou por alguns instantes: e oito horas.


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