A voz era forte, cheia daquele poder que só os cantores do
passado tinham. Porque os de agora, Maria Luiza achava, eram todos fabricados.
Até a depressão, o semblante, a postura: tudo de mentira.
Mas aquela música ali não. Ali havia dor de verdade, saudade
forte e até cheiro de bebida.
Maria Luiza quase podia imaginar o compositor criando na mesa de um bar
décadas atrás.
"Como vai você?"
Ah, como Maria Luiza queria saber.
Se as coisas andavam bem.
Se o um bom emprego chegara.
Se uma nova namorada havia.
Quando esse golpe de saudade forte atingiu Maria Luiza, ela
estava buscando um assento vazio no ônibus urbano linha 890-1 na hora do rush.
Foi um golpe forte e ainda bem que Maria Luiza encontrou um lugar no fundo do veículo
longo mantenha distância – ao lado de um homem que aparentava seus setenta anos.
Maria Luiza pensou imediatamente que, enquanto o compositor
escrevia aqueles versos décadas atrás, esse mesmo homem era mais jovem, talvez com uma vida incrível e com uma mulher amada muito bonita.
Desejou conversar com ele. Compartilhar os fones de ouvido.
Acharia ele estranho se ela de repente perguntasse: "O senhor, por acaso,
conheceu Antônio Marcos? O que o senhor imagina que estava fazendo enquanto ele
compunha isso aqui que está tocando agora?"
Mas Maria Luiza convenceu-se que isso seria de uma bobagem
sem tamanho. E a música na função repeat começou de novo.
Deus, como ela queria saber como ele estava.
Teria dormido bem na noite anterior? Resolvido seus
problemas com a insônia?
E aquela dor na lombar que nunca passava?
Da parte dela, houve tantas notícias! Tantas, tantas, e ela não teve a
quem contar.
Não da forma como contaria a ele, os olhos brilhando, a
vontade mais pura de compartilhar alguma coisa no dia.
Levou as mãos à cabeça e enfiou os dedos sobre os próprios cabelos; aí sim, sentiu vontade de chorar.
Porque estava cansada, chovia lá fora, o trabalho era
um porre e aquele golpe de saudade chegara tão certeiro quanto dolorido.
O homem a seu lado se levantou, pediu licença
discretamente e desceu no ponto da Avenida Janeiro.
Maria Luiza então se sentiu a vontade para tomar seu lugar
ao lado da janela fria, suada por dentro, molhada de chuva por fora. Ali mesmo,
na Avenida Janeiro, eles foram tão felizes; e ela se lembrava de tudo como se
analisasse uma tela impressionista de perto: cada borrão, cada batida de
pincel.
Pensou em ligar, mas não havia mais nenhum número para
chamar.
Pensou também que não era o correto a se fazer.
Não soube se gostava mais dele ou de si mesma quando a
música questionou isso, pela quinta vez.
Chegou a seu destino, deu o sinal, desembarcou. O ônibus
urbano linha 890-1 seguiu rua acima. Dali o ônibus passaria por mais cinco quadras e
então uma rua mais estreita, esquina com a Comandante Rodrigues.
Ali, na Comandante Rodrigues ele dissera que haviam chegado
a um fim.
Maria Luiza não sabia ainda que devia parar de gostar. Não
fora avisada, não recebera memorandos.
Ele deixara de gostar e ela ficou: sozinha, questionando a
si mesma se deixara escapar algum detalhe, algum sinal que fosse.
Nunca mais pisou na rua estreita, esquina com a Comandante
Rodrigues. Nunca mais visitara o bairro, nunca mais comeu naqueles
restaurantes, admirou a bela placa luminosa do sebo que vendia livros e discos
maravilhosamente antigos.
Pensando nessas coisas, Maria Luiza se lembrou que precisava
abrir o guarda-chuva. Era tarde, sim, porque já estava encharcada. Antonio
Marcos continuou gritando em seu ouvido:
“Como vai você?”
- Eu vou muito bem, obrigada. – respondeu, resmungou, cheia de um desdém falso, recém-inventado.
E retirou os fones dos ouvidos, enrolou-os dentro da bolsa,
caminhou poças d’água até encontrar o portão da própria casa, mas o assombro da
voz do músico continuou em sua cabeça por um longo período.
Dois anos, três meses, doze dias, oito horas e Maria Luiza se
perguntava quando aquela contagem teria fim. Ela não estava bem.
Girou a chave no portão, entrou em casa. Respirou. Amanhã, talvez, pudesse acordar mais feliz.
Jamais soube que, naquele mesmo horário, ele passava num táxi, apressado, pela rua estreita, esquina com a Comandante Rodrigues.
- O senhor quer que abaixe o volume? - o motorista perguntou.
- Não, não. Tudo bem. Eu gosto dessas músicas antigas.
Lembrou-se de Maria Luiza na mesma hora em que Antonio Marcos questionou "Como vai você?" no rádio do veículo. Foi quando pensou também, e não pela primeira vez, em como estaria sua vida, se Maria Luiza, que o amou tanto um dia, ainda estivesse a seu lado.
Carregava consigo diversos erros.
Também saudade e arrependimento.
Mas então era tarde, era apenas muito tarde e era noite. Eram dois anos, três meses, doze dias...
Olhou no relógio, checou por alguns instantes: e oito horas.
Olhou no relógio, checou por alguns instantes: e oito horas.

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