21 de maio de 2014

as dores do parto



Eu escrevo histórias há bastante tempo. Ainda não tive a graça de ver nada meu publicado por aí (exceto meu TCC para a pós-graduação, que foi lindamente editado há dois anos), mas continuo escrevendo porque acho que este é o melhor exercício que alguém poderia fazer. Não tô desmerecendo sua dança, sua musculação, nem seu treino de boxe. Pelo contrário, já levei bronca médica por estar mais parada do que deveria (e tô, inclusive, procurando academia). Entretanto, escrever, pra mim, ultrapassa o bem querer. É tipo amor. Escrevo quando sinto que algum personagem está pegando no meu pé, doido pra nascer, sair do mundo das ideias e ganhar a folha em branco. Habitá-la.

Só que escrever não é só escrever. Quando você começa a tirar da sua cabeça aquela narrativa tão maravilhosa desenhada em sua mente, o bicho pega. E pega porque na hora que você precisa detalhar as coisas, o mundo parece ficar frio e malévolo. Nada colabora.

É assim: a história está linda na sua mente, começada, terminada até, maravilhosa. Experimenta começar do começo no papel. Experimenta começar a partir do "Era uma vez..." e descubra o magnífico trabalho que dá tirar os personagens da sua cabeça grávida de ideias. Dar à luz. É "o ó".

E é "o ó" justamente porque na hora de detalhar as coisas, você precisa ser bom em pesquisa. Claro que é muito mais fácil escrever sobre coisas e lugares que você conhece bem. É mais fácil e mais aconselhável, mas os personagens e narrativas quando chegam não querem muito estar de acordo com o "mais fácil e o mais aconselhável". Eles querem ser o que são. Eles querem nascer em outro planeta. Eles querem ser do século XVI. Eles querem morar em Paris. E você se vê numa situação complicada de localizá-los no tempo e no espaço de uma maneira que faça sentido na sua história.

Se você não for bom em pesquisa, o trabalho todo cai por terra e vira dust in the wind.

Eu, por exemplo, costumo definir datas, locais e vocabulário utilizado antes de começar, e só então passo a escrever alguma coisa. Mas aí me dou conta que preciso pesquisar mais a fundo tudo o que está ao redor do personagem. Preciso pensar sua vida, suas roupas, seus desejos, sua visão de mundo, seus objetos pessoais, se aquele palavrão que ele deseja usar já era usado em 1707, por exemplo.

Lembro que, anos atrás, li uma entrevista do Chico Buarque falando sobre seu livro, "Budapeste". Chico nunca havia estado em Budapeste. Eu achei aquilo tão sensacional! Fiquei pensando na trabalheira que deu para descrever as coisas sem as ter olhado de perto. Só por obra e graça da Internet mesmo.

Quando terminei meu primeiro romance de época (e que se passava na Itália), eu tinha virado uma verdadeira expert em assuntos da província de Lucca. Sem nunca ter pisado lá. Sabia nomes de ruas, de personagens históricos importantes, de torres, igrejas e praças. Sabia, inclusive, descrever com perfeição o cheiro e o gosto dos temperos, a atmosfera laranja e as aparências dos moradores. Poderia dar aulas de Lucca. Tudo isso apenas para situar meu casal de personagens num espaço que fizesse sentido. Que fosse real, para eles.

Pesquisar faz parte do escrever. Pesquisar torna o escrever muito mais difícil e cansativo até. Mas, ao mesmo tempo, é gratificante.

O único "porém", no entanto, porque eu sou bipolar e perfeccionista, é que uma dúvida, em mim, sempre persiste: Será que se Chico tivesse visitado Budapeste antes de escrever, seu livro não seria melhor? Será que se eu tivesse pisado em Lucca, de verdade, meu romance não seria mais bem escrito? Não já teria sido publicado, inclusive? 

Eu. Não. Sei.

Eu acredito no poder das experiências para tornar uma história mais verdadeira. Eu acredito na dor na hora de passar para o papel algo maior do que o é, no cabeça do autor. MAS, eu poderia ter pisado em Lucca e ainda assim ser uma escritora medíocre, anyway, né? Ou poderia ter pisado em Lucca e ser ainda melhor. E aí?

E de novo, eu te digo: eu não sei. Eu não sei.

Só sei que agora ando às voltas com uma pesquisa de carros australianos da década de 30. Sei lá se vai virar um romance de verdade ou não, um dia. Só sei que, se não começo a escrevê-los e não os meto num papel depressa, eles simplesmente não me deixam pensar em mais nada. Nada.

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